A Soberania de Deus no Cadinho da Dor: Do Clamor do Coração ao Silêncio do Redemoinho: A HISTÓRIA DE JÓ. Prof. Raymundo Cortizo Perez, (Th.D.)
Introdução Biográfica: A Fé no Cadinho do Tempo
Na tradição da lírica protestante, a poesia não é apenas um exercício de estética, mas um ato de obediência, adoração e rendição teológica. A biografia do crente é, por definição, uma biografia de crises, provações e restaurações. Quando o sofrimento pessoal nos atinge, a inclinação natural do coração humano é a busca por autonomia, por respostas lógicas que satisfaçam a nossa justiça própria e por explicações imediatas para os mistérios da dor.
No entanto, o verdadeiro consolo protestante não nasce da compreensão dos mistérios divinos, mas da confiança cega, obediente e irrestrita na soberania daquele que governa o cosmos.
A jornada deste texto reflete esse caminhar da alma. Começamos com o desabafo lírico e a exploração teológica ampla, capturando a atmosfera de dor, o silêncio e as grandes perguntas humanas diante do sofrimento. Em seguida, avançamos para a lapidação final: o soneto de estrutura rígida tradicional (o decassílabo heróico).
Escrever sob o rigor da métrica reflete, em termos formais, a própria verdade espiritual que Jó experimentou: a verdadeira liberdade e a beleza não nascem do caos ou da falta de limites, mas da submissão a uma ordem superior, perfeita e eterna. Este trabalho nasce da experiência de quebrar o orgulho próprio diante do Redemoinho, trocando a exigência de respostas pela paz da obediência.
Epígrafe
"Bem sei eu que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido. (...) Portanto, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, as quais eu não conhecia."
— Jó 42:2, 3b
Parte I: O Trono do Redentor sobre o Sofrimento
(Uma meditação lírica sobre a presença de Deus e o consolo que brota de Sua soberania absoluta em meio às cinzas da dor.)
O Silêncio do Redentor
Quando a noite desaba e o corpo se inclina ao pó,
E a alma experimenta o silêncio cinzento de Jó,
Onde as perguntas ecoam num deserto sem fim,
E o coração esquecido pergunta: "Por que sobre mim?"
Não há resposta no vento, nem na voz dos mortais,
Os conselheiros humanos multiplicam os ais.
Mas quando o peito se cala e cessa o clamor,
A soberania se ergue como o grande consolador.
Pois Aquele que firma as bases de toda a terra,
E os limites dos mares no Seu punho encerra,
Não perde o controle quando o meu mundo desaba;
O Seu plano governa onde a minha vista acaba.
Se Ele dá e Ele tira, Seu nome ainda é santo,
Sua mão que permite é a mesma que enxuga o pranto.
A dor não é o acaso de um cosmos perdido e vil,
Mas o cinzel do Escultor no Seu plano sutil.
Eu sei que o meu Redentor vive e se levantará,
E sobre a cinza do meu sofrimento reinará.
Descanso na força do Trono que não pode cair:
Se Ele é soberano, o amanhã eu posso florir.
Parte II: A Resposta do Criador no Redemoinho
(O momento culminante da submissão da alma, onde a poesia se curva ao rigor da forma e o homem se cala diante da majestade do Deus cosmológico.)
Soneto do Redemoinho
Do vento escuro e forte o som ecoa,
Pergunta o Deus que o cosmos acendeu:
"Onde estavas, ó homem, quando o céu
Ganhou a luz que o tempo coroa?
Quem deu limite às águas, quem regeu
A grande aurora que no espaço voa?
Se o Meu decreto o mundo aperfeiçoa,
Por que murmura o coração que é Teu?"
Dobro o joelho, expulso o meu orgulho,
Pois minha carne é pó, sopro que passa,
Diante da voz que quebra o meu barulho.
Não peço leis, nem fáceis amparos,
Rendo a vontade ao Trono da Tua graça,
Teus pensamentos são divinos, raros.
Epílogo: O Descanso na Soberania
O encerramento do diálogo entre a criatura e o Criador não se dá pelo esclarecimento pleno da mente, mas pela pacificação dos afetos na soberania de Deus. Ao submetermos as palavras ao rigor da métrica e da rima, espelhamos a atitude da alma atribulada que deve submeter-se de forma obediente aos decretos do Altíssimo.
A verdadeira obediência e a confiança começam exatamente onde a nossa capacidade de explicar o mundo termina. Na teologia protestante, o consolo não é a promessa de que a dor desaparecerá imediatamente, mas a convicção convicta de que o Deus que governa o Leviatã, as Plêiades, o vento do deserto e as galáxias distantes, segura a nossa existência pessoal em Suas mãos soberanas e paternalmente amorosas. Ali, no silêncio da submissão e da fé, o sofrimento encontra o seu propósito eterno e o crente encontra o seu verdadeiro descanso.