Prof. Raymundo Cortizo Perez, (Th. D.)
Epígrafe
"Apareceu um homem enviado por Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha para testificar a respeito da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para testificar da luz."
— Evangelho de João 1:6-8
Introdução Biográfica: O Último dos Profetas e a Voz da Transição
João Batista não foi apenas um homem de seu tempo, mas o epicentro de uma transição cósmica. Nascido por milagre da união entre o sacerdote Zacarias e a estéril Isabel, sua própria gestação já carregava o selo da escolha divina: estremeceu no ventre materno ao reconhecer a presença de Jesus, ainda no ventre de Maria. João representa o ápice e o fechamento da Antiga Aliança; ele é o último e o maior dos profetas clássicos de Israel, cuja existência foi moldada para um único propósito: desaparecer para que o Messias aparecesse.
Rejeitando o conforto dos palácios e o formalismo do templo de Jerusalém, João retirou-se para a crueza do deserto da Judeia. Sua vida era puro lirismo ascético — vestia-se de pelos de camelo, alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre, e transformou as águas do Rio Jordão no cenário de uma revolução espiritual. Sua teologia era direta, urgente e escatológica, sintetizada no anúncio do "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo".
A ontologia de João confunde-se com a sua função: ele não definia a si mesmo por um nome ou linhagem, mas por uma responsabilidade cósmica — ele era, essencialmente, "a Voz". Sua filosofia de vida baseava-se na Quenose (o esvaziamento absoluto do eu), culminando na sua máxima: "Importa que Ele cresça e que eu diminua". Essa fidelidade inabalável à Verdade confrontou o poder político de sua época, levando-o à prisão por ordem de Herodes Antipas. Seu martírio — a cabeça decepada e entregue em uma bandeja como prêmio de uma dança sensual — não foi uma derrota, mas o selo final de um homem que esvaziou-se por completo na terra para ser preenchido pela eternidade.
A Voz do Deserto
(Poema em Versos Alexandrinos — 12 Sílabas)
No arcano do porvir, / antes que o mundo visse
A luz do primeiro astro / ou o homem existisse,
Deus traçou o caminho / e a mente do Profeta:
João seria o arauto, / a bússola correta.
No ventre de Isabel, / o infante já pulava,
Sentindo a própria Graça / que o mundo esperava.
A luz do primeiro astro / ou o homem existisse,
Deus traçou o caminho / e a mente do Profeta:
João seria o arauto, / a bússola correta.
No ventre de Isabel, / o infante já pulava,
Sentindo a própria Graça / que o mundo esperava.
O deserto foi berço, / o mel e o gafanhoto,
No lirismo do vento, / um canto devoto.
As águas do Jordão, / em curso cristalino,
Lavavam o pecado / ante o Olhar Divino.
Vivia no silêncio, / herói da solidão,
Trazendo a utopia / moldada em oração.
No lirismo do vento, / um canto devoto.
As águas do Jordão, / em curso cristalino,
Lavavam o pecado / ante o Olhar Divino.
Vivia no silêncio, / herói da solidão,
Trazendo a utopia / moldada em oração.
Misteriosa essência! / Ser fôlego e ser Voz,
Cumprindo a profecia / num tempo tão feroz.
A sua identidade / era o próprio clamar:
Tornar-se o mensageiro / para o Caminho abrir.
O peso do seu Ser / fundia-se à missão,
Pois a sua existência / era a preparação.
Cumprindo a profecia / num tempo tão feroz.
A sua identidade / era o próprio clamar:
Tornar-se o mensageiro / para o Caminho abrir.
O peso do seu Ser / fundia-se à missão,
Pois a sua existência / era a preparação.
Sua teologia / não vinha de doutores:
"Eis aqui o Cordeiro / que tira as nossas dores!"
Batiza com a água / o corpo que se curva,
Mas sabe que o Messias / limpa a mente turva.
Com fogo e com Espírito / o Cristo agirá,
E o trigo do conluio / no celeiro porá.
"Eis aqui o Cordeiro / que tira as nossas dores!"
Batiza com a água / o corpo que se curva,
Mas sabe que o Messias / limpa a mente turva.
Com fogo e com Espírito / o Cristo agirá,
E o trigo do conluio / no celeiro porá.
A sua filosofia / era o esvaziamento:
"Que mude a minha glória / em desaparecimento;
Importa que Ele cresça / e que eu diminua."
A luz que brilha nele / é reflexo da Sua.
A carne se submete / ao plano do Senhor,
O homem se desfaz / perante o Salvador.
"Que mude a minha glória / em desaparecimento;
Importa que Ele cresça / e que eu diminua."
A luz que brilha nele / é reflexo da Sua.
A carne se submete / ao plano do Senhor,
O homem se desfaz / perante o Salvador.
E no banquete insano, / na dança do pecado,
O prêmio do carrasco / foi o mestre sagrado.
A cabeça levada / na bandeja de prata
É o fim do mensageiro / que a terra maltrata.
Mas o sangue vertido / coroa a sua história:
A morte do Profeta / é o portal da Glória.
O prêmio do carrasco / foi o mestre sagrado.
A cabeça levada / na bandeja de prata
É o fim do mensageiro / que a terra maltrata.
Mas o sangue vertido / coroa a sua história:
A morte do Profeta / é o portal da Glória.



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